O termo Ambergris deriva do árabe anbar, originalmente associado ao âmbar, a resina fossilizada de coloração amarelo-âmbar. Mais tarde, o termo evoluiu para o francês ambre gris, ou “âmbar cinzento”, referência direta à sua coloração característica após longa exposição ao mar.

Popularmente conhecido como “vômito de baleia”, o Ambergris não é vômito. Trata-se de uma substância de origem animal produzida pelo cachalote (Physeter macrocephalus, também conhecido como Physeter catodon), o maior mamífero dentado existente e, tecnicamente, uma baleia odontoceta.

Foto: Paloma de Lazari. Flickr

Origem biológica

A dieta do cachalote é composta principalmente por lulas e polvos gigantes. As ventosas desses cefalópodes são indigestas e altamente abrasivas. Parte desse material é regurgitado, mas outra parte alcança o estômago e o intestino.

Para evitar que essas estruturas causem perfurações internas, o organismo do cachalote produz uma secreção rica em ambreína e epicoprostanol, liberada pela bílis. Essa secreção envolve os resíduos não digeridos, formando uma concreção cerosa que, eventualmente, é expelida pelo trato intestinal.

Em alguns casos, dependendo do tamanho, essas massas podem causar lesões graves no canal retal e levar o animal à morte. Não é incomum que cachalotes encontrados mortos apresentem grandes quantidades de Ambergris no reto ou intestino grosso.

Transformação no oceano

Quando recém-expelido, o Ambergris apresenta coloração escura, textura pegajosa e odor fecal intenso. No entanto, após anos — entre 5 e 20 — vagando pelos oceanos, sob ação combinada da brisa marinha, da luz solar e do calor, ocorre um lento processo de oxidação e desidratação da ambreína.

Esse envelhecimento natural transforma profundamente o material: a cor torna-se acinzentada ou esbranquiçada, a textura se solidifica e o odor evolui para um perfil olfativo complexo e altamente valorizado.

As notas olfativas característicos do Ambergris incluem:

  • ambaradas

  • amadeiradas

  • especiadas

  • terrosas

  • de tabaco

  • almiscaradas

  • animálicas

  • e nuances marinhas salinas

Ambergris na perfumaria

Historicamente, o Ambergris foi uma das matérias-primas mais nobres da perfumaria. Sua principal função era arredondar acordes, conferir profundidade, tenacidade e uma sensualidade difusa difícil de reproduzir.

Com o avanço da regulamentação ambiental e ética, o uso da matéria-prima animal foi gradualmente substituído por similiares sintéticos, como Ambrox®, Ambroxan® e outros derivados inspirados na estrutura da ambreína.

Ainda assim, o Ambergris natural pode ser encontrado, de forma extremamente rara, em algumas vertentes de perfumaria natural artesanal, geralmente obtido por achados fortuitos em praias, onde a legislação local permite.

Na indústria, seu uso entrou em forte declínio a partir de 1973, especialmente após a proibição comercial nos Estados Unidos.


Curiosidades

  • O cachalote possui em sua cabeça uma grande quantidade de óleo chamado esparmacete — substância distinta do Ambergris — amplamente explorada até o final do século XIX para iluminação pública, antes da popularização do petróleo.

  • A caça desenfreada às baleias e cachalotes é retratada de forma simbólica no romance Moby-Dick, de Herman Melville.

  • Em 1953, durante a temporada baleeira na Antártida, foi encontrado no intestino grosso de um cachalote um bloco de Ambergris com cerca de 420 quilos.

  • O valor do Ambergris pode atingir dezenas ou até centenas de milhares de dólares por quilo, dependendo da qualidade, maturação e perfil olfativo.

  • A caça ao cachalote é proibida na maioria dos países.

  • O comércio de Ambergris é proibido em países como Estados Unidos, Austrália e Índia, mesmo quando o material é encontrado naturalmente em praias.

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Por Pablo Lizárraga  

Perfumista — Orsiliz Parfums  

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